PS CORAÇÃO DE JESUS

Agosto 26 2009
Há um conflito institucional?

1. Na última semana a comunicação social, na sua quase totalidade, tem alimentado uma intriga sobre um hipotético conflito institucional, divulgado por gente anónima, que não dá a cara, em contradição com o que se celebrava, há um ano ou mais: a cooperação geoestratégica institucional.

 

Uma boa dezena de jornalistas, da imprensa escrita e falada, tentou contactar-me, várias vezes, percebi bem a intenção, para colher de mim uma frase ou duas - não seria preciso mais - para alimentar o pseudoconflito institucional. Claro que o bom-senso - e alguma experiência que conservo de um passado, cada vez mais longínquo - aconselhou-me a estar calado, a não lançar achas numa fogueira, cujo objectivo ignoro, sobretudo, no momento de crise grave que o País atravessa, tanto mais que não é elegante dirigir críticas aos seus sucessores, além do dever de reserva que a qualidade de membro do Conselho de Estado me impõe.

 

Na realidade, em lugar de alimentar tensões entre as instituições, os políticos e os partidos, o momento pré-eleitoral aconselha, os responsáveis, a abrir as portas possíveis e a estabelecer pontes para que um diálogo entre os políticos possa tornar-se fluente, com vista à consolidação possível da democracia e, sobretudo, não contribuindo para o desespero e a desconfiança dos cidadãos. Especialmente, sabendo-se, como já aqui escrevi, que a maioria sociológica da opinião, no nosso país, é de esquerda e, se não se une para a governação, facilmente se poderá unir na oposição... Ora, estimular a descrença e o desespero, em tempo de crise, suscita revoltas porventura incontroláveis e outras formas perigosas de violência. Em especial contra os partidos e personalidades reputados de direita.

 

Basta que os partidos não se entendam, nesta fase pré-eleitoral em que os resultados não são nada fáceis de prever - e em que a generalidade das pessoas está descontente e insegura quanto ao seu futuro próximo - para que seja insensato e mesmo perigoso aprofundá-los agora, entre os responsáveis que gerem parcelas diferentes do poder: o moderador e o executivo, para já não falar do judicial, que está a ser roído, cada vez mais, pelo descrédito, dada a lentidão e a ineficácia comprovada da sua acção.

 

Atenção, pois, ao que aí vem. Admitam o pior, no pós-eleições legislativas e nas que se seguem. Não se deixem influenciar pela comunicação social nem pelas intrigas de "clientelas" anónimas. A estatura dos políticos avalia-se pela ponderação, a coragem, a lucidez e a determinação quanto à forma como encaram as dificuldades do presente - e o modo como as ultrapassam - bem como a visão que demonstram quanto ao futuro que preparam para a colectividade...

 

2. A entrevista que a dra. Manuela Ferreira Leite concedeu à RTP1, que vi e ouvi com a maior atenção, constituiu, para mim, uma profunda decepção. Não esperava muito, confesso, dadas as intervenções que tem feito, desde que é líder do PSD. Mas foi pior do que supunha. De uma banalidade que, algumas vezes, roçou o patético.

 

Só falou dela própria. É uma pessoa séria, decidida, que tem o culto da verdade, que só faz o que deve e não abre concessões para ninguém, sejam amigos ou não. Já o sabíamos. Mas tudo isto é o pressuposto para qualquer político, que tenha princípios éticos e não seja um oportunista. Não precisava, portanto, de o dizer, muito menos tê-lo dito à saciedade. Seria mais subtil - e ficar-lhe-ia com certeza melhor - se mandasse dizer a outrem todos os auto-elogios com que entendeu dever mimosear-se...

 

Mas isso é uma questão de forma, mais ou menos elegante. O pior foi o conteúdo. Quanto à definição das políticas que entende dever promover, não se dignou dizer-nos nada de concreto. Um deserto de ideias. Como irão então decidir-se os eleitores nas escolhas a fazer? Não deu qualquer elemento novo. Limitou-se a apresentar a sua personalidade de moralista, como paladina da verdade e pura como uma vestal, em contraste com a do seu principal adversário, José Sócrates, a quem não se impediu de chamar "mentiroso" (sic), um termo pouco próprio num debate democrático entre adversários políticos. Com um olhar de mazinha ao canto do olho, que me surpreendeu...

 

Sendo economista de profissão e antiga ministra das Finanças, funções em que, aliás, não se destacou especialmente, esperar-se- -ia que Manuela Ferreira Leite revelasse algumas ideias novas para vencer a crise, que é, afinal, o que os portugueses querem acima de tudo saber. Mas não. Atirou a questão para um programa que há-de vir, para depois de Agosto, porque agora os portugueses não têm disposição para essas leituras. Manuela Ferreira Leite fala por si. Mas, que diabo, se não quer falar das questões de que é especialista, por as julgar enfadonhas em Agosto, será que trazia na manga do impecável vestido bege, que lhe ficava tão bem, alguns apontamentos sobre cultura, educação, ciência, ambiente,

 

Europa, justiça, administração, Segurança Social, luta contra a criminalidade, defesa, luta contra o terrorismo, imigração, política no sentido mais estrito, relações partidárias, reforço da democracia? Nada! Realmente, não disse nada de jeito, sobre nenhum dos temas da actualidade que refiro. Então, perguntar-se-á: para que concedeu esta entrevista à RTP1, agora, em meados de Agosto, se não tinha ou não queria dizer nada? Apenas para se mostrar no seu encantador new look? Nesse aspecto, aceito que, dentro do possível, não tenha estado mal. Mas o pior é que não disse, aos seus compatriotas, nada do que eles esperavam e desejavam ouvir... Nesse aspecto, a entrevista foi uma verdadeira ocasião perdida!

 

3. Na quinta-feira passada escrevi na Visão um artigo a que chamei: "Marx saiu do purgatório?".O meu objectivo era chamar a atenção dos portugueses para que pensassem, no plano teórico, na importância de perceber, politicamente, a crise global do capitalismo financeiro e especulativo que estamos a viver. Curiosamente, o último Nouvel Observateur, de 20 a 26 de Agosto, intitulava a primeira página desse seu número: "O grande regresso de Marx para compreender o capitalismo de hoje."

 

Na verdade, "as derivas do capitalismo financeiro do século XXI" vieram dar um reganho de actualidade ao grande teórico do "Capital", cujas intuições geniais assumiram, com a actual crise, uma força inesperada.

 

Os economistas clássicos, formados pelo neoliberalismo, recusam-se a compreender isso. É um erro. Como muitos dos socialistas neoliberais formados na "terceira via", uma verdadeira fraude intelectual. Mas há cientistas políticos que não podem ser acusados de marxistas - como Alain Minc, por exemplo -, que dizem que o "único teórico que pensou, ao mesmo tempo, a economia e a sociedade foi justamente Karl Marx". Daí a sua actualidade.

É tempo, realmente, para que os portugueses pensem que a economia é uma ciência social, que depende da política, e que, sem uma sociedade mais justa - atenta às pessoas e não apenas às oscilações do mercado - não é possível ter uma economia sã, capaz de travar a crise actual do capitalismo financeiro.

 

Eis um bom tema para um debate entre socialistas e não socialistas, nos partidos e fora deles, em tempo de eleições. Talvez volte ao tema nos meus próximos artigos.

 

4. O desmoronamento de uma arriba na praia Maria Luísa, em Albufeira, foi um desastre intolerável que fez cinco vítimas mortais, veraneantes demasiado confiantes na praia onde se encontravam. Quem foram os responsáveis? As vítimas, o destino, as autoridades marítimas, os autarcas que não se aperceberam do perigo que as pessoas incautas corriam e correm? As culpas, repartidas, esfumaram-se sem responsabilizar ninguém, até ao próximo desastre...

 

O triste caso impressionou-me imenso. Até porque sou utente diário de uma praia onde há várias arribas nas mesmas condições. Trata-se da praia do Alemão, assim chamada, entre João d'Arens e a praia do Vau, por onde passam todos os dias milhares de pessoas em Agosto. Os acessos são péssimos. Mas boa parte da costa algarvia incorre no mesmo risco. Todos os anos se fala e nada se faz. Acrescente-se a pressão imobiliária de enormes prédios que deixaram construir muito próximo, ou mesmo em cima, de arribas idênticas.

 

Enfim, é preciso - urgente - olhar com olhos de ver para as nossas zonas costeiras e ter planos, de realização imediata, para as consolidar. Se não quisermos matar a galinha dos ovos de ouro do turismo algarvio...

 

Artigo de Mário Soares, publicado in "Diário de Notícias" de 25 de Agosto de 2009

publicado por pscoracaodejesus09 às 01:45

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